As baterias no Chile crescem mais rápido que as regras que as operam. É o alerta de Matías Negrete, diretor da consultoria Vinken, em uma análise divulgada em 26 de outubro de 2026 e publicada pelo REDIMIN: os sistemas de armazenamento seguem em tempo real a instrução de carga e descarga da última programação disponível do Coordinador Eléctrico Nacional, o operador do sistema, e se as condições mudam depois têm pouca margem para se adaptar.
O exemplo é concreto. Em 12 e 13 de outubro, nas horas em que as baterias descarregaram, o preço real médio foi de US$ 2,8 por MWh, enquanto a programação supunha US$ 41 por MWh. Ou seja, as baterias entregaram sua energia em horas em que o sistema já estava abastecido e o preço estava perto de zero, em vez de guardá-la para as horas de maior valor.
A própria análise tem limites que convém dizer: a comparação de preços não prova uma perda econômica atribuível só a esse problema nem mostra quanto as baterias teriam ganhado com outro despacho. Os preços no atacado mudam por muitas razões, como a disponibilidade de usinas, a demanda e os congestionamentos de transmissão, e a arbitragem não é a única fonte de receita: as baterias também recebem por potência e por serviços ancilares.
Quanto pesam hoje as baterias no Chile
O debate chega quando o armazenamento já é uma parte relevante do sistema. Segundo o boletim de setembro da Associação Chilena de Energias Renováveis e Armazenamento (ACERA), havia 3.125 MW de baterias em operação, com 13.555 MWh de capacidade de energia, outros 3.017 MW em testes e 5.130 MW em construção. Em setembro as baterias injetaram 584 GWh, 7,9% da energia do Sistema Elétrico Nacional.
| Armazenamento em baterias (setembro de 2026) | Potência | Fonte |
|---|---|---|
| Em operação | 3.125 MW (13.555 MWh) | ACERA |
| Em testes | 3.017 MW | ACERA |
| Em construção | 5.130 MW | ACERA |
| Em construção (32 projetos) | 3.702 MW (15.398 MWh) | Ministério de Energia |
| Energia injetada em setembro | 584 GWh (7,9% do total) | ACERA |
Os números de construção não coincidem entre fontes: o Relatório de Projetos do Ministério de Energia conta 32 projetos com 3.702 MW, enquanto a ACERA soma 5.130 MW, e nenhuma das duas explica a diferença. O detalhe dessa carteira e da meta de 6.000 MW está em nossa matéria sobre os 32 projetos de baterias em construção.

O que o DS 32 muda para as baterias no Chile
A resposta regulatória já existe no papel. O Decreto Supremo nº 32 do Ministério de Energia, publicado no Diário Oficial em 17 de junho de 2026, modificou o regulamento de coordenação e operação do sistema (DS 125 de 2017) para aplicar as figuras de armazenamento e de sistemas de geração-consumo criadas pela Lei 21.505, segundo o resumo do escritório Garrigues. O decreto consta da lista de regulamentos do Ministério de Energia.
- Custo de oportunidade: o custo de produção de uma bateria passa a ser seu custo de oportunidade, isto é, o valor de guardar a energia para um momento posterior. O operador o calcula para minimizar o custo de operação presente e futuro, e ele não pode ser menor que o custo variável da instalação.
- Despacho centralizado: o operador programa a carga e descarga das baterias que participam dos mercados de energia e potência. As de até 9 MW de injeção podem pedir autodespacho.
- Despacho automático: o operador deverá usar ferramentas automáticas de despacho econômico na operação em tempo real.
- Prazos: 24 meses a partir da publicação para aplicar as novas regras de custo de oportunidade e 36 meses para as ferramentas de despacho automático, com um plano de trabalho por etapas nos primeiros 60 dias.
Enquanto esses prazos correm, valem as regras anteriores: até que a norma técnica correspondente seja editada ou modificada, o custo de produção de uma bateria sem custo de oportunidade calculado é zero, igual ao de uma usina solar ou eólica. Contados a partir de 17 de junho de 2026, os prazos vencem em junho de 2028 e junho de 2029.
| Marco regulatório | Data | O que implica |
|---|---|---|
| Publicação do DS 32 | 17 de junho de 2026 | Novas regras para baterias e autoconsumo |
| CNE inicia a mudança da Norma Técnica de Coordenação e Operação (Res. Ex. 383) | Agosto de 2026 | Adequar a norma ao DS 32 |
| Primeira sessão do comitê consultivo da norma | 24 de setembro de 2026 | Discussão técnica com a indústria |
| Prazo para o custo de oportunidade | Junho de 2028 | 24 meses a partir da publicação |
| Prazo para o despacho automático | Junho de 2029 | 36 meses a partir da publicação |
A Comissão Nacional de Energia (CNE) iniciou em agosto o processo para modificar a Norma Técnica de Coordenação e Operação, justamente para adequá-la às mudanças do DS 32, e em setembro designou o comitê consultivo que participa da discussão.

A proposta da indústria: programar dentro do dia
Em julho, a ACERA apresentou um estudo encomendado à Vinken que propõe três mudanças: programação intradiária (refazer o plano de despacho várias vezes ao dia), cálculo do custo de oportunidade da energia armazenada e uso de informação atualizada de demanda e geração. Segundo uma apresentação do operador em agosto citada pelo REDIMIN, hoje o órgão faz entre 1 e 7 atualizações de sua programação em um mesmo dia.
O tema importa porque as baterias são a principal ferramenta para aproveitar a energia solar que hoje se perde ao meio-dia. No terceiro trimestre, a geradora Colbún atribuiu parte da queda de 18% do custo marginal médio, para US$ 44,1 por MWh, à maior contribuição das baterias, segundo sua análise financeira. Se as baterias descarregam quando o preço já é baixo, esse benefício para o sistema e para seus donos diminui. O efeito da sobreoferta solar nos preços aparece na matéria sobre o custo marginal no menor nível desde 2002.
Para Negrete, a rigidez atual impede aproveitar toda a flexibilidade do armazenamento, enquanto outros recursos se ajustam a mudanças de demanda, geração ou disponibilidade de linhas. O peso crescente dessas instalações na matriz está em nossa matéria sobre a participação das baterias na eletricidade do Chile.
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Ver formatos publicitáriosPerguntas frequentes sobre as baterias no Chile
Quem decide quando uma bateria carrega e descarrega no Chile?
O Coordinador Eléctrico Nacional, que programa a operação do sistema para que seja segura e ao menor custo total. As baterias de até 9 MW de injeção podem pedir autodespacho, segundo o DS 32.
O que é o custo de oportunidade de uma bateria?
É o valor de guardar a energia armazenada para usá-la depois. Se a bateria descarrega agora, tem menos energia disponível para uma hora futura em que poderia valer mais.
Quando as novas regras do DS 32 entram em vigor?
O operador tem 24 meses a partir de 17 de junho de 2026 para aplicar o cálculo do custo de oportunidade e 36 meses para as ferramentas de despacho automático, ou seja, até junho de 2028 e junho de 2029.
Quantas baterias há em operação no Chile?
Segundo a ACERA, em setembro de 2026 havia 3.125 MW em operação, com 13.555 MWh de capacidade, mais 3.017 MW em testes.



